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terça-feira, 5 de outubro de 2010

AO EU POETA OBSCURO*

Meu caro eu, meu poeta obscuro, se as portas se fecham, acalma o coração que o Todo deseja. Deixa supurar o mar da fúria. Eu sou essa fúria espalmada, aquele caracol que de teu limbo escapa. Um ângulo da alma, um certo abismo que te chama. Mas não te deixes sorver por essa força que te toma. Aceita, escreve... E lembra-te: lesmas, abelhas, abismos não são propriamente aos quinze minutos de fama destinados.

Se a poesia te chama, empenha-te em colocá-la para fora com as ferramentas que te servem. E aos ouvidos que te pedem, fala...

Entra em bons termos com a mágoa. E que tua alma acolha mais e mais a dor dos elefantes...

Achega-te a mim, a tua secreta verdade...

Sente como é bom pernoitar no coração dos amigos que te acolhem, te apalpam. São eles teus termômetros, tuas asas.

Vai ao teu jardim, ama tuas flores, observa aquela luz que as ilumina e se transfigura em tua alma. A beleza são esses achados, um certo conciliar entre o sentido que enxerga e as inesgotáveis manifestações da alteridade. É o paradoxo encantado, ilusão que nos diz que não existimos sem o mundo, e este não vive sem nossos olhos. Expressa essa beleza que é essência, que ao espírito remete.

No mais, os dias passam, o sol diminui no ocaso seu passo. E tudo volta, com o novo dia, ao seu antigo hábito.

Ah, escreve para os elefantes. Dizem que eles não esquecem. Assim tua alma inteira irá se aquientando em tua casa...

Fernando Campanella



*Maravilhoso texto, do especial amigo, poeta, e professor mineiro, Ferando Campanella.
Enjoy.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Poema

(Photo by Fernando Campanella)

... os grilos agora tilintam
e a luz da lua
impregna as árvores de um bálsamo.
Meu amor, se possível me aguarda,
retorno a ti, clara a trilha
que agora aos meus olhos se abre.

(Fernando Campanella)

Laderzi's Gallery

Linda homenagem da querida amiga Leila Derzi, ao poeta Fernando Campanella, pela passagem de seu aniversário.Clique na foto para ler.

Obs:
Uma vez aberta uma foto individual, clique no lado direito do mouse e vá a
'Go full screen' (Tela grande) para melhor visualizar o belíssimo trabalho da querida amiga.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Uma cronica de meu amigo, Fernando Campanella.MG.

(Fotografia de Antônio Carlos Januário - MG)


As tardes de outono propiciam crepúsculos inigualáveis. Embora os atores – nosso velho, vaidoso sol, as frívolas nuvens, o ar, o imponderável vento... – sejam sempre os mesmos em outros períodos do ano, é nesses dias que precedem o inverno que os espetáculos do fim da tarde rendem maior vibração em luz, forma, cor e tom.

Os crepúsculos outonais lembram algo como o capricho de um demiurgo a brincar com infinitas possibilidades na reorganização de toda matéria pré-existente. Uma arte de tamanha grandeza, de tão poderoso efeito ,onde o criador, o sujeito, se esquece e se confunde com o objeto da própria criação.

Assim, em escala menor, com todos artistas que, movidos por um impulso interno, reestruturam o que vivem, o que recebem, neste insondável processo mágico que denominamos ‘criar’.

Assim, com a poetisa Emily Dickinson que, tocada pelos fenômenos naturais de Amherst, reestruturou as impressões, as emoções internas, rendendo este maravilhoso crepúsculo-poema:
219

Ela varre com vassouras multicores
E sai espalhando fiapos,
Ó Dona arrumadeira do crepúsculo,
Volta atrás e espana os lagos:

Deixaste cair novelo de púrpura,
E acolá um fio de âmbar,
Agora, vejam, alastras todo o leste
Com estes trapos de esmeralda!

Inda a brandir vassouras coloridas,
Inda a esvoaçar aventais,
Até que as piaçabas viram estrelas —
E eu me vou, não olho mais.

****
219
She sweeps with many-colored Brooms —
And leaves the Shreds behind —
Oh Housewife in the Evening West —
Come back, and dust the Pond!

You dropped a Purple Ravelling in —
You dropped an Amber thread —
And how you've littered all the East
With duds of Emerald!

And still, she plies her spotted Brooms,
And still the Aprons fly,
Till Brooms fade softly into stars —
And then I come away —

(TEXTO EM PROSA BY FERNANDO CAMPANELLA, POEMA BY EMILY DICKINSON)

sábado, 11 de abril de 2009

MARES NUNCA D' OUTREM NAVEGADOS

(Cabo Sardão -Alentejo- Portugal)

Escrever sobre o Alentejo sem nunca ter estado em Portugal, como seria isso possível? Seria como falar do outono de New England sem nunca ter visto , in loco, as tonalidades das folhas nessa especial estação. Ou como falar dos ursos que em nosso inverno nunca vieram hibernar.

(Monsaraz-Alentejo-Portugal)

E no entanto falamos. E como poetas, cantamos, em nosso ritmo próprio, tantos as paisagens que nos são peculiares, tão nossas, como as que são de outros. Cantamos nossas montanhas, se as temos, nossas planícies, se as desbravamos, nossa gente com quem convivemos. Mas também divagamos por longos desertos que nunca percorremos, por galáxias que jamais viremos a conhecer: os tais 'mares' nunca d'outrem, nunca d'antes, navegados.

Especialmente quando escrevemos sobre o nosso e outros mundos, é o espaço mítico que criamos, a alma apossando-se da geografia própria, ou alheia, para transformá-la em símbolos, em matéria de sonho.

(Evoramonte-Aentejo- Potugal)

Um alentejano poderia escrever sobre Minas sem nunca minha região ter visitado. Eu o entenderia: o imaginário não se limita ao tempo-espaço, tem a sua característica dinâmica por onde transita todo o universo.

O mito é recorrente, eterno, ultrapassa o homem. Independente, caminha com as próprias, teimosas, pernas, é de todos, e ainda não se fixa,
não é prerrogativa de ninguém.


Fernando Campanella

*Imagens de Aletejo, Portugal, retiradas da Net.

sexta-feira, 13 de março de 2009